Dia Internacional dos Museus | 18 de maio

Imagem: Agenda Cultural Lisboa | O Poder dos Museus é o mote do Dia Internacional dos Museus deste ano

Museu

Qualquer museu é, na definição do International Council of Museums (ICOM, 2001), “uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e do seu entorno, para educação e deleite da sociedade”.

Os museus tiveram origem no hábito humano do colecionismo, que nasceu com a própria humanidade. Desde a Antiguidade remota, o homem por infinitas razões, coleciona objetos e atribui-lhes valor, seja afetivo, cultural ou simplesmente material, o que justifica a necessidade de sua preservação ao longo do tempo. Há milhares de anos já se faziam registos sobre instituições vagamente semelhantes ao museu moderno. Entretanto, somente no século XVII se consolidou o museu mais ou menos como atualmente o conhecemos. Depois de outras mudanças e aperfeiçoamentos, hoje os museus, que já abarcam um vasto espectro de campos de interesse, se dirigem para uma crescente profissionalização e qualificação de suas atividades, e caracterizam-se pela multiplicidade de tarefas e capacidades que lhes atribuem os museólogos e pensadores, deixando de ser passivos acúmulos de objetos para assumirem um papel importante na interpretação da cultura e na educação do homem, no fortalecimento da cidadania e do respeito à diversidade cultural, e no incremento da qualidade de vida. Porém, muitos dos conceitos fundamentais que norteiam os museus contemporâneos ainda estão em debate e precisam de clarificação.

Continuar a Ler >>

Referência: Museu – Wikipédia, a enciclopédia livre. (2022). Retrieved 18 May 2022, from https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu

Conteúdo relacionado

Eu… leitor | Jorge Serafim | Contador de Histórias

Fronteira, 2022

Tu! Em cada leitura.

Desta vez não era a palavra escrita que pretendia. Porque a leitura das coisas, por algum motivo que me transcendia, dissipava-se sempre no meu interior. Algures entre o coração e o estômago. Não sei se seria uma traição de sílabas desavindas ou desalinhadas das funções sintácticas da língua, que a páginas tantas, agrupadas em palavras, depois em frases, em parágrafos e finalmente em profícuos textos, desnudavam um sentido para o qual não estaria preparado. Ou também, se seria o texto a escorrer-me pelas dúvidas. Talvez um manifesto cansaço que pretendia solucionado no término das minhas leituras solitárias, apesar das interrogações que pairavam dentro da cabeça, quando arrumava as lombadas devidamente alinhadas em alturas similares nas prateleiras das estantes do meu escritório. Casa quadriculada onde habitavam quadros, pequenas esculturas, poesia, romances, pintura, ensaios, monografias, viagens, banda desenhada, cd’s, guitarras e memórias. Algumas despidas de espirito, mas ainda assim, memórias dentro do prazo validade. A saúde assim o permita.

Sei que, de cada vez que lia uma página mais parecia estar a folhear um debate entre o coração e o estômago. Entre o sentir e o digerir. Ainda acreditei que os ácidos actuassem de forma a transformarem os conteúdos em leitura digestiva e que as batidas do coração me bombeassem metáforas renovadas em sangue novo. Sentia-me enclausurado pelo dever de interpretar meticulosamente cada propósito do escritor. E no entanto para entrar no seu universo faltava-me algo. A leitura silenciosa há muito que a possuía. Ainda mantenho como uma criança, o hábito de deslizar os dedos da esquerda para a direita coordenados por um olhar voraz. O indicador direito seguindo ligeiro atrás da palavra em linha recta, pela frase fora, à descoberta de algo inolvidável. O dedo fidelizava-se a uma liberdade vindoura. Era como um bailado clássico, um autêntico LAGO DOS TEXTOS. Mas faltava-me algo. Sensorial. Emocional. Algo que neste processo solitário de leitor me reactivasse a memória do início, lá atrás, no começo da descodificação dos signos e da forma gráfica dos textos.

Tu!

A voz que musicalizava todos os sentidos e as intenções da escrita. Lias e fazias-me gostar do que gostavas. Amar o que amavas. Só então os livros começaram, atrevidos, a interagir comigo. Uma outra voz oriunda dos confins da linguagem. O esplendor da comunicação! Só então os tinha como meus. Quando a voz modulada transformava as letras imobilizadas na página em matéria palpável. Vivificante! Compreendi que a respiração da palavra lida em voz alta, pontuada, era uma fala que oxigenava o prazer da leitura. Uma outra descoberta! E que as palavras quando não respiram através do aparelho vocal das pessoas estão contraídas de existirem. É o quebrar do elo, da intimidade. Mas quando serenamente, agarravas um livro, escolha prévia, e passeavas serenamente a tua delicada mão pela capa, como um afago demorado, sentia que só o teu dizer do título me algemava ao que estaria para vir. Que porvir! Antecipadamente queria que me condenasses a leitura perpétua. A tua voz não admitia recurso. Estava sentenciado e não contestava. Depois começavas e a obra transformava-se num corpo concreto. Resgatavas da ausência um escritor de carne e osso. Conseguia ver a altura das montanhas e as águas cristalinas dos rios. Enxergar a riqueza de um palácio e as cores exóticas do oriente. Discernir o canto dos pássaros e os urros das feras. Sentir o coração dos homens e o ódio dos semelhantes.

Quando te escutava, abria-se suavemente uma porta para que acedesse livremente à descodificação do mundo. O texto ganhava corpo, textura, volumetria, um carácter tridimensional. Enlaçava-me nos seus braços, entrelaçava-me na narrativa e apertava-me contra si, permitindo-me sentir o bater do seu peito. Entendia claramente que era a tua voz que me encaminhava a escuta para dentro dos sussurros do vento quando passava pelas frestas da porta da cozinha da velha casa da avó. E tornava a visualizá-la, lavando a loiça, num lavatório de pedra mármore, escavado em quadrado, apenas com uma torneira de água fria. Enquanto o fazia, falava sozinha. Não sei ao certo o que dizia, no entanto tenho a certeza que mesmo analfabeta, seria este íntimo reler da sua vida que originava uns estranhos e encantatórios diálogos, em que emissor e receptor se assumiam sinónimos por necessidade… De falar, claro está. O vento depois de entrar colhia essas conversas nas suas asas e saía brando pela janela, levando os seus assuntos até às laranjeiras do quintal. Por tua causa, ainda hoje creio que as laranjas são vitaminadas pelas confabulações da avó. O eu pergunta, o eu responde. O eu sorri, o mesmo eu chora. Falar sozinho são muitos em simultâneo, percebi.

Eu via e sentia tudo isto. Como tomavas fôlego para que o livro se desenrolasse como um novelo de lã. Enchias os pulmões de ar para expirares um fio às vezes rectilíneo, outras ondulado. Parecia que da tua boca saíam pautas musicais onde as narrativas anotavam distintas direcções.  Sonante e dissonante, a tua voz em mim, tomava uma escala diferente de tudo o que ouvira até então. Enchias novamente. Era um baile mandado de toada, ora alegre, ora triste. Ora efusiva, ora melancólica. Ora isto, ora aquilo… Como era bonito ouvir as palavras tão bem articuladas. Esse teu jeito singular de bebericares fonemas como os pardais nas poças de água. E de me entoares por cima todo o mel de um poema enquanto uma mão segurava o livro e a outra depois de mudar a página, assumia o seu papel de batuta de orquestra para complementar o andamento da minha atenção. Repetias a inspiração.

Hoje, leio sôfrego. Na liberdade maior. Individual e interno. Íntimo. Sem ruído algum ao meu redor. A não ser uma música de fundo. Ambiente propenso para me sentir suspenso do tempo e suas circunstâncias. Não sei se é o prazer da leitura solitária que me continua a convocar, se é a procura incessante daquele tempo em que através de ti, me via dentro dos textos dialogando com as personagens, tecendo enredos, conhecendo lugares e às vezes, ingenuamente,  tentando alterar o rumo do escritor. Em certas páginas cheguei a sentir a sua esferográfica a roçar-me o espírito. Dei por mim a esquivar-me das suas rasuras. A saltar ao pé coxinho sobre as suas reticências. A chocar de frente nas suas exclamações! De usar uma interrogação como um cajado para chegar ao fim da caminhada. Contigo, as palavras não me apressavam para um sentido obrigatório.  Tinham alma, não eram mudas. No início era a melodia, a mediação, o berço da leitura, o nascer de um pensamento, o germinar dos significados. A familiaridade com um admirável mundo novo nomeado e identificado pela riqueza da linguagem. Simultaneamente passado e presente tornavam-se intemporais. As sombras tinham vida, os mortos falavam e os corações tomavam a eternidade como garantia. Só depois, muito depois, a gramática, a sintaxe, a semântica. Fui um leitor implicado e clarificado antes de saber ler. Aprender começou em ti. Tu em voz alta, produto de sucessivas leituras silenciosas para que os textos viessem entonados até mim como canções de embalar. Tanto que delas preciso para adormecer tranquilamente. Ainda as oiço, qualquer que seja a natureza dos textos, dos seus suportes e dos contextos… Ainda te escuto! Porque em mim…

Tu! Em cada leitura.

___

Maio de 2022 | Fronteira

***

Se preferir, oiça o podcast.

Um símbolo da liberdade: Taras Shevchenko |Ucrânia, 1814 – 1861

No Dia da Europa e num momento muito difícil para o povo ucraniano, o PNL2027 não quer deixar de lhe expressar a sua solidariedade, amizade e admiração, apresentando, para tal, o maior poeta e humanista da Ucrânia: Taras Shevchencho.

Taras Shevchenko foi pintor, desenhador, artista, pensador e humanista, um visionário de uma Ucrânia moderna. Viveu de 1814 a 1861, teve uma vida curta e difícil, pois, dos 47 anos de vida, 24 anos foram passados em escravidão e 10 no exílio. Mas a sua obra perdura no tempo e encontra-se interiorizada em cada um dos ucranianos. Um símbolo que se confunde com a própria nação ucraniana.

Toda a sua vida e obra foram dedicadas ao seu povo. O poeta sonhava com uma época em que o seu país seria um estado soberano e independente, em que a língua, a cultura e a história do povo passariam a ser honradas na Ucrânia e as pessoas seriam felizes.
Tradicionalmente, na casa de uma família ucraniana há dois livros: a Bíblia – a história da salvação do homem – e a Colecção de obras poéticas de Shevchenko-Kobzar, que transmite uma filosofia profunda: a filosofia de um homem espiritualmente livre.

Kobzar“, a sua obra maior, é o testemunho dos seus ideais revolucionários, e ainda hoje os seus versos inspiram canções e bordados ucranianos. Morreu em fevereiro de 1861, tinha 47 anos, mas só três meses depois, o seu corpo foi sepultado na Ucrânia. “Queria ver as correntes do rio Dnipro”, um dos seu últimos desejos, revelados no poema “Testamento”, símbolo da luta pela liberdade na Ucrânia.

TESTAMENTO

Depois de eu morrer, enterrai-me
Na terra por sobre a colina,
No meio do largo deserto
Da minha querida Ucrânia.
Afim de eu poder contemplar
A vasta campina ao redor,
E ouvir as correntes do Dnipro
Descer com saudoso rumor.
Depois de ele ter, da Ucrânia,
O sangue do inimigo, levado,
P’ra o fundo do mar, deixarei
Os campos com o solo lavrado.
Despido de tudo às alturas
Do céu voarei, subirei
A Deus, dirigir-lhe-ei preces…
A Deus por enquanto eu não amei…
Irmãos, sepultai-me, levantai-me,
As férreas correntes quebrai!
Com o sangue do vosso inimigo
O livre terreno regai.
Irmãos, não deixeis de enviar
De mim, em palavras bondosas,
P’ra grande família, p’ra o lar
Paterno, lembranças saudosas.

(2022). Retrieved 9 May 2022, from https://noticias.up.pt/wp-content/uploads/2014/03/eflyer.pdf

Clique para ouvir o poema ao som dos U2, ao vivo, no metro, em Kyiv

Taras Shevchenko também foi artista plástico. O grupo de folk rock Tarasova Nich, de Lviv, usou a música de Ivan Nyshpor, que também criou a animação do clipe com imagens de pinturas e gravuras feitas por Taras Shevchenko. Vale a pena ver e ouvir esta versão bem atual de um poema atemporal.

É importante observar que ainda hoje os jovens ucranianos continuam a reverenciar poetas, poemas e músicas que falam ao coração, à alma, ao ser ucraniano.

No vídeo abaixo oiça o poema “O Testamento” agora em língua italiana.

Conteúdo relacionado:

Portugal for Ukraine

Jovens e leitura | modelo operativo para fomentar a leitura dos jovens

Foto de cottonbro no Pexels

O projeto Modelo Operativo para promover a leitura para jovens é uma iniciativa da Fundação Germán Sánchez Ruipérez com o objetivo de explorar as perceções que os adolescentes têm em relação à leitura e contrastá-las com a visão fornecida sobre esse assunto pelos mediadores que trabalham com eles, principalmente professores, bibliotecários e gestores culturais.

A análise foi realizada por meio de um trabalho de pesquisa que permitiu delinear um cenário de referência no qual são identificados os principais desafios e oportunidades que, a curto e médio prazo, devem ser levados em consideração ao definir modelos de intervenção voltados para o fortalecimento da leitura na sociedade nos próximos anos, com foco na população jovem.

Como resultado do estudo e dos seminários que foram realizados em paralelo com seu desenvolvimento, a equipe de pesquisa, em colaboração com os profissionais da fundação, preparou e editou um relatório de diagnóstico com uma proposta de diretrizes e recomendações, que podem ser consultadas e baixadas aqui.

Além disso, foi gerada uma linha de conteúdo de formação on-line destinada a mediadores que trabalham com o público juvenil, composta pelas peças didáticas contidas nesta página, nas quais um grupo de especialistas contribui com ideias de aplicação transversal, juntamente com outras focadas em dinâmicas e recursos concretos que se têm mostrado eficazes em atrair o interesse dos jovens pelas práticas de leitura e escrita.

INCENTIVE A ESCRITA

Introdução | Diferentes cenários | O processo | Escreve hoje |

EDUQUE A COMUNICAÇÃO ORAL

Introdução | Atividades | Outras ideias | Contadores de histórias |

SOCIALIZANDO A LEITURA: CLUBES DE JOVENS

Definição | Breve história | Tipos de clubes | Passo a passo |

APROVEITAR O DIGITAL

Clube de leitura virtual | RR SS para clubes | Wattpad para clubes | Escrever con Wattpad |

Fichas do Laboratório Contemporâneo de Fomento da Leitura

Referência: JÓVENES Y LECTURA – Fundación Germán Sánchez Ruipérez. (2022). Retrieved 29 April 2022, from https://fundaciongsr.org/emprendelibro-3/

Línguas afiadas – mulheres que foram tão longe quanto puderam

Dorothy Parker / Texto de Michelle Dean | Revista LER

Download |

Em De Língua Afiada, Michelle Dean evoca um conjunto de mulheres com o denominador comum de, ainda em vida, terem ficado conhecidas como sendo «de língua muito afiada». Por exemplo: Nora Ephron, Susan Sontag, Mary McCarthy, Hannah Arendt ou Dorothy Parker. As características da sua escrita, tanto a nível das ideias como do estilo, são muito diferentes, mas une-as a capacidade de terem escrito de uma forma memorável. Este é um extrato da introdução ao livro – e o capítulo dedicado a Dorothy Parker.

Continuar a Ler >>