Rodar o caleidoscópio para ver os três ou mais Herculanos

Revista LER, nº 157 / Texto de Hugo Pinto Santos

De quem falamos, quando falamos de Alexandre Herculano? Quando o seu nome ocorre, e talvez pudesse ser menos raro, é o pioneiro do romantismo português que se refere? O romancista, ou o historiador? O poeta que depôs a lira antes dos 30 anos – ou o jornalista? É o soldado, o combatente pela liberdade? Será o defensor do casamento civil que se casou pela Igreja? Ou ainda o tribuno intermitente – a quem José Estêvão teria dito, ao vê-lo a ler por papéis, no fórum ainda incipiente da democracia portuguesa: «Ó senhor, largue a sebenta!»? De todas essas imagens se comporá Herculano, sem que uma das suas facetas nos autorize a esquecer as outras. Porque todas se implicam mutuamente para formar uma personalidade ímpar, e nada linear, da cultura portuguesa.

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Eu … Leitora | Ana Raquel Rodrigues, estudante do ensino superior

O mundo mágico das fadas, princesas e sereias faz parte do meu imaginário infantil, desde que me lembro. Pela voz da minha mãe, que sempre me rodeou de livros e de histórias que me ajudaram a crescer, conheci mais mundos do que consigo enumerar. Sei, hoje, que este despertar cedo para a leitura foi fundamental para ser quem sou. E não falo só de competências académicas, mas, sobretudo, de criatividade, pensamento crítico e capacidade de compreender o mundo que me rodeia.

Reconheço que o ensino superior não me deixa muito tempo para esta leitura prazerosa e me empele a uma leitura funcional, para responder às exigências do curso que frequento.

Se sinto falta desses momentos íntimos com a leitura? Sim! Sem dúvida.

Falta-me essa escapatória para um mundo paralelo, em que posso participar se quiser, ou retrair-me se não gostar do rumo que a história está a tomar. Posso apaixonar-me por uma personagem ou desejar que outra desapareça. E sinto falta do friozinho no estômago ou da lágrima ao canto do olho quando aquele livro que vivi intensamente chega ao fim. Parece quase uma etapa da minha vida que termina.

Olhando para trás, sei que os livros que li traçaram o caminho que me permite, a cada instante, escolher o meu futuro, embora este seja sempre incerto. 

Se conseguisse mostrar a importância que a leitura teve para mim, estou certa que mais jovens buscariam este prazer secreto que só a leitura nos pode dar.

Se preferir, oiça aqui o relato da Ana Raquel.

Nota: A Ana Raquel tem participado no Espaço de Opinião da Universidade da Madeira (UMa) do Diário de Notícias da Madeira

A leitura eletrónica em retrospetiva

Photo by Mathieu Stern on Unsplash

Embora possa parecer que a leitura eletrónica já exista há muito tempo, a verdade é que o primeiro microprocessador, o Intel 4004, foi lançado em 1971, época em que os computadores pessoais começaram a popularizar-se. O seu uso massivo para a comunicação e o acesso à informação ainda levaria alguns anos a chegar.

O famoso teste internacional de avaliação PISA só integrou a leitura eletrónica (Leitura Eletrónica: PISA 2009-ERA) na sua terceira edição, em 2009. Os resultados permitiram comparar a leitura de textos impressos com a leitura digital e mostrar que esta última exigia habilidades adicionais, as chamadas “habilidades de navegação”, como por exemplo: avaliar os links para aceder às páginas relevantes, não se distrair com as irrelevantes, voltar a uma página previamente consultada quando necessário.

A leitura eletrónica não contempla apenas a utilização de menus, scroll ou links para percorrer o texto. A ordem e o roteiro de leitura diferem de leitor para leitor, dependendo dos links escolhidos a cada momento (A compreensão dos hipertextos), pelo que a estratégia de leitura selecionada deve ser eficiente.

Mas a leitura eletrónica não é algo completamente diferente da leitura no papel (Relação entre competência de leitura e leitura digital), apesar de terem  mais peso as habilidades de leitura “tradicionais”. Para fazer face a estas diferenças, já foram propostos modelos que abrangem as duas formas de leitura (Resolução de problemas de informação: uma habilidade complexa).

Durante algum tempo, falou-se muito sobre os nativos digitais: gerações que nasceram quando o uso de dispositivos digitais e da internet já eram comuns e às quais, às vezes, eram atribuídas habilidades especiais para pesquisar e gerir informações em formato eletrónico. No entanto, os dados não confirmam estas ideias (Fatores que influenciam a compreensão de textos na Internet. Alguns dados de adolescentes ; As dificuldades dos nativos digitais com os textos digitais).

Essa nova forma de representar a informação criou novos usos e possibilidades. Apresentam-se exemplos de propostas de leitura de histórias para crianças, onde se utiliza a leitura tradicional, o uso de multimédia e histórias interativas (Histórias multimédia, histórias interativas ou ouvir histórias?), associando-lhes a leitura partilhada (Aconchegue-se comigo e vamos ler este e-book).

A utilização de apps para dispositivos eletrónicos tem, também, sido alvo de atenção, pois usam as características dos dispositivos móveis para fomentar a leitura rápida, aumentando a velocidade de leitura (Spritz. Consegue ler a 1000 palavras por minuto?), o que parece ter um impacto negativo na compreensão.

Por fim, o mais surpreendente na leitura eletrónica é que, embora pareça uma evolução da leitura em suporte de papel, a compreensão de textos impressos é melhor do que em textos eletrónicos (Não deite fora ainda os livros de papel;  Ler no papel é ainda melhor, mas não sabemos por quê). 

Cabe à comunidade científica explicar este fenómeno.

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Texto reproduzido, a partir da fonte, com alterações.

Referência: Décimo aniversario 6. Lectura electrónica. (2021). Retrieved 18 May 2021, from https://clbe.wordpress.com/2021/05/12/decimo-aniversario-6-lectura-electronica/

Eu… Leitor | Duarte Martins (Professor) | La Fala Mirandesa

Foto de Luís Almeida

La fala mirandesa   (an mirandés )

La purmeira beç que l’ oubi falar cuido haber sido an casa. Inda nun sabie que se chamaba mirandés i habie sido la fala de mius abós i de mius pais que la falában todos ls dies.

Miu abó calças, acorda-se-me bien, era ferreiro, tenie ua frauga, fazie facas i a las bezes, andaba de frauga, quier dezir, aguçaba las reilhas pa ls arados de las bacas, de ls burros, de las mulas i de ls machos. Naquel tiempo habie gente, era un rebolhiço. Las pessonas de l pobo i outras que andában de frauga falában de la mesma maneira. Mie abó saias era ua mulhier que trabalhaba no campo, cumo todas las mulhieres daquel tiempo: a arar, a scabar, a acarrear, a lheinha, a tratos a la huorta, a ser buieira. Apuis inda le sobraba tiempo para fazer l caldo i la comida i lhabar la roupa, assi le passaba tamien a mie mai. Las ties mirandesas d’antigamente nun sei adonde íban a saber de tanta fuorça para carregar l mundo a las cuostas. Miu pai dába-se mais al campo i a la buiada, siempre le gustou la cria: tener ua bacada gorda, uas turinas que díssen muito lheite, uns bitelos balientes para bender, fazer por trigo i de apanhar pa la cria: milho, bena, bóbidas, nabiças, ferranha. La bida de ls  bezinos i de la gente de l pobo nun era assi tan defrente de la nuossa i todos falábamos assi.

Quando antrei pa la scola, la porsora nun falaba cumo nós, a la nuossa moda. Ls rapazes i las rapazas de l miu tiempo tubírun de ampeçar a falar mais pertués. No ampeço custou-me un cachico, habie siempre ua palabra a spreitar,  a querer salir a caçuar i nós teniemos que l’angulhir d’agudo antes que se abrisse la gabeta adonde staba guardada la reuga. Apuis até que nien se m’amportou muito isso i, als poucos, fui daprendendo dues maneiras de falar.

Las purmeiras bezes que fui até Miranda, dába-me de cunta que la gente de la cidade nun falaba assi cumo nós, falaba a modos a la porsora de la scola purmaira i mius pais fazien l mesmo, quando benien a la cidade, a tratos al que fusse. Quando falában pertués,  mius pais dezien que falában l grabe ou l fidalgo.

Mandórun-me a studar para fuora cun dieç anhos, porque mius pais assi l quejírun. Naquel tiempo iba muita rapaziada pa ls seminairos a daprender. Pul menos, mie abó saias dezie que era l sítio adonde nun habie bardinaige. Cuido que la mie família querie que you tubisse ua bida melhor que la deilhes: “Nun quedes eiqui cumo nós, miu filho, toda la bida a çufar la tierra.” Nas férias, quando benie, agora, mius pais falában mais cumigo an pertués- al cuntrairo de mius abós- que siempre falában a la nuossa moda.

Solo mais tarde ye que oubi dezir que aquilho que falábamos an casa i no miu pobo era un dialeto, chamában-le anton, naquel tiempo, l dialeto mirandés. I quedei-lo a saber por bias de mie abó saias gustar muito de las cousas de l’eigreija, por tener ua grande deboçon a Nuossa Senhora de l Naso. Un die agarrei-le un lhibrico, mi pequerrico i finixo, c’uns bersos dedicados a “La birge de l Naso”. Cuido que fui la purmeira beç que bi algo screbido an fuolha de papel,  naquilho que le chamában l dialeto mirandés, que era tamien la mie fala.

Muito mais tarde, pul Liceu i na Ounibersidade fui tomando conhecimento de outros lhibros i de outros nomes de studiosos i screbidores: José Leite de Vasconcelos, Ramón Menéndez Pidal, António Maria Mourinho, Cristina Martins, Manuela Barros, Ivo Castro son alguns desses nomes. 

Puls purmeiros fui tanteando i sabendo que aqueilha maneira de falar de mius abós, de mius pais, de ls bezinos i de la gente de l miu pobo (i de outros de las redundezas) era ua fala, tan antiga cumo la pertuesa. Ua fala lhatina que tubo l sou bércio nun de ls remanses que se formórun na Península Eibérica i que fazie parte de la família de lhénguas astur-lhionesas. Que essa fala habie sido tamien la lhéngua de l bielho reino de Lhion, a que pertenciu Pertual, durante muitos seclos i que nesse tiempo era la fala de la corte i de ls mosteiros, screbida an  decumientos até als séculos XIII i XIV.

Haberie de sacar ua lhicenciatura an pertués, mais tarde, ua de las mies falas, aqueilha que daprendi na scola i porende afuora.

Hoije ansino a alguns ninos i a ninas a faláren i a screbíren; nó la fala que daprendi na scola, mas aqueilha que oubie an casa a mius abós i a mius pais, i que, durante muito tiempo, solo fui transmitida ouralmente. Cun l salimiento de la cumbençon ourtográfica mirandesa laborada por bários antendidos an 1995 i 1999 todo parece haber demudado i hai mais gente a screbir i a ler mirandés. Aquilho que parecie ser solo ua fala oural, passou tamien a tener mais cuorpo na scrita i na leitura. I hoije yá nun ye assi tan ralo ancuntrar lhibros screbidos an mirandés, ler an mirandés, de cumo quando fui daqueilha beç que ancuntrei l lhibrico de mie bó saias, cun bersos dedicados a la Senhora de l Naso.

Clique na imagem para ouvir o texto, em mirandês, na voz do professor Duarte Martins.

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Revista Ler | Primavera/Outono 2020 | Texto de Manuel Frias Martins | Photo by Anthony Tran on Unsplash

Será que faz ainda sentido separar radicalmente os termos literatura séria e literatura popular? Há uma ponte a estabelecer com a literatura ligeira, ou esta deve ser ignorada? Autor e professor de Teoria da Literatura (e tradutor de Harold Bloom), Manuel Frias Martins propõe uma leitura de conjunto dos textos do nosso tempo.

Continuar a insistir no mito de que o entretenimento massificado é de mau gosto, e que os seus textos ficcionais mais populares estão destinados ao caixote de lixo, é não só preconceituoso mas também errado. O erro de avaliação é quase sempre consequência da sobranceria intelectual do avaliador e não é um dado exclusivo da modernidade.

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