Censura, literatura popular e literatura séria

Revista Ler | Primavera/Outono 2020 | Texto de Manuel Frias Martins | Photo by Anthony Tran on Unsplash

Será que faz ainda sentido separar radicalmente os termos literatura séria e literatura popular? Há uma ponte a estabelecer com a literatura ligeira, ou esta deve ser ignorada? Autor e professor de Teoria da Literatura (e tradutor de Harold Bloom), Manuel Frias Martins propõe uma leitura de conjunto dos textos do nosso tempo.

Continuar a insistir no mito de que o entretenimento massificado é de mau gosto, e que os seus textos ficcionais mais populares estão destinados ao caixote de lixo, é não só preconceituoso mas também errado. O erro de avaliação é quase sempre consequência da sobranceria intelectual do avaliador e não é um dado exclusivo da modernidade.

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Eu… leitor | Paulo Condessa | Maestro de Palavras

Sou um leitor normal; derramo palavras para dentro do meu silêncio em forma de mundo. Também sou um leitor anormal. Quer dizer, leio de maneiras esquisitas, ponho volume na voz, para cima e para baixo, faço os gestos que me apetece para deixar que as letras se espalhem pelo corpo. Faço experiências sonoras, corporais, alfabéticas.

A coisa é simples: os poemas estão escritos no papel, eu imagino a cena, o que as palavras dizem, e fico a reparar no que sinto (um pouco como aquelas pessoas que ficam à janela, a olhar para o que se passa na rua).

E depois, como se tivesse pedido ajuda a uma empresa de mudanças, transporto aquilo tudo (de dentro para fora) usando o camião que tenho à mão: a voz e o corpo. Quando as sensações começam a dar à costa, às vezes, empurram-me os braços em estranhas direcções, mudam-me o timbre e o ritmo, arqueiam-me as sobrancelhas e o diabo a sete. Outras vezes “tenho” que repetir sons e consoantes, ou sílabas inteiras: é como se o chefe da estação estivesse a dizer ao comboio para chegar outra vez, que uma vez não era suficiente (todos sabemos como é bom repetir a sobremesa).

Também posso ficar sério ou calado, durante mais tempo do que a medida oficial. Depende do que estou a imaginar e sentir. Imaginar e sentir são palavras íntimas mas eu dispo-me à frente dos outros porque acredito que elas me merecem esse respeito e essa dedicação. Dançar e fazer música também podem reclamar uma grande dose de intimidade e no entanto há muitos artistas que se dispõem a elevar a sua nudez à condição de obra de arte.  E, como a dança, como a música, as palavras poéticas também podem ser um espectáculo que nos eleva além da mera compreensão racional das coisas do mundo.

Também treino pessoas a ler assim, sozinhas e em grupo. Organizo orquestras de pessoas, de palavras, de sentimentos. Juntamo-nos procurando uma espécie de caos organizado, uma criatividade selvagem e domesticada ao mesmo tempo. Ler assim, em liberdade e em grupo, produz uma comunhão avassaladora e surpreendente. É uma loucura e é a minha paixão.

Agora, como é que isto aconteceu? Eu andava farto da minha antiga profissão e despedi-me. Entretanto reencontrei o poeta Nuno Moura, na altura editor da Mariposa Azual, que ia lançar um livro. Diz ele: e se fossemos ler em voz alta, no dia do lançamento? Lá fomos, levando a reboque as nervoseiras de principiante. Não fomos mal recebidos: a maior parte eram amigos! Gostámos daquilo, da sensação de estar em palco, a ler para os outros, e formámos o CoPo (já tem 23 anos). Para começar fizemos esta pergunta: o que é ler bem?  Quem é que manda nisso do que é ler bem? Há aí algum rei da leitura?

Umas culturas gostam de umas coisas, outras gostam do contrário. As modas têm prazos de validade. Então começámos a fazer experiências. Líamos, repetíamos, entoávamos, gesticulávamos. Um dia, num poema do Cesariny, “o último poema” (para nós foi o primeiro), percebemos que havia ali um caminho. Continuámos a experimentar e já não parámos, ainda hoje é assim, escavamos até encontrar uma estrutura e deixamos uma parte livre para o improviso.

Quando começámos a fazer espectáculos as pessoas ficavam boquiabertas, algumas riam, outras ficavam sem saber o que pensar, uma aventura. Mas Portugal estava a mudar e as pessoas queriam coisas diferentes, queriam respirar à vontade e o nosso sucesso foi-se tornando cada vez mais normal.

Um dia analisei o que andávamos a experimentar e montei uma formação para ensinar aquela espécie de free style, em grupo. Entretanto começámos os dois a fazer espectáculos e intervenções a solo (hoje em dia é o mais comum).

Mantenho viva aquela descoberta: o gozo de inventar maneiras de dizer, de deixar o corpo falar, de ser livre como uma criança, de explorar os sons,  os ritmos, os sentidos. Às vezes há pessoas que se sentem ofendidas quando eu não digo um poema da maneira “certa”, a maneira que elas imaginaram. É legítimo. Mas também é legitimo dizer que não há maneira “certa”, não há um rei da leitura. Se ninguém nos pode dizer como viver a nossa vida então porque é que nos hão-de dizer como havemos de ler?

Descobri que viver exige liberdade, quem quer acertar em tudo vai falhar o principal, tentar perceber tudo é não perceber o principal. Espero que o meu testemunho vos inspire a experimentar, a descobrir, a manter a leitura viva. Não há receitas universais. Eu até criei um protocolo que encurta e acelera a progressão mas cada um pode fazê-lo à sua maneira e ao seu ritmo. Somos livres de ser livres e podemos aplicar essa máxima à leitura, se ousarmos entrar em modo descoberta. Mas agora cada um é que sabe e, seja como for, não sei que vos diga.

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Paulo Condessa | sítio web oficial

Oiça o texto na voz do autor:

O Idiota Maravilhoso de Shüsaku Endö

Revista Ler | Outono 2019 | Texto de Adelino Ascenso || Foto Credit: Bettmann Archive/Bettmann

Sem dúvida que uma das melhores vias para o desenvolvimento da investigação das relações entre fé e cultura se encontra no manancial oferecido pela dimensão estética, nomeadamente, na arte e na literatura. Poesia e ficção são meios privilegiados para expressar o divino oculto no sentido profundo de enfermidade e angústia, alegria e esperança, dúvida e pasmo, pois elas vagueiam pelos corredores mais recônditos da Humanidade. Por isso, a ficção é um pilar fundamental para a base antropológica necessária à reflexão teológica. É a esta luz que toda a obra de ficção do escritor japonês Shusaku Endo deve ser analisada e avaliada.

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Eu… Leitor | Pedro Seromenho | Escritor

Pormenor de ilustração do livro “Uma mão cheia”, que será lançado no próximo dia 8 de abril pela Porto Editora.

Antes de saber ler e escrever, falava imagens. Era a minha forma de comunicar. Desenhava e partilhava tudo o que via e sentia, na esperança do mundo me perceber. É o que todos fazemos. Para nos sentirmos vivos e presentes. Depois, veio o verbo e o prazer de abrir um livro para viajar. Foi uma descoberta surpreendente, que me deixou feliz. Deixei de estar apenas num lugar e o mundo passou a caber-me na palma da mão. Aprendi os países, as cidades, as capitais, os rios e as montanhas. De repente, cresci e soltei-me como um gigante que descalça o mar e afasta as nuvens para passar. Bastava estender um braço para alcançar as estrelas e os planetas! Nunca mais parei de ler. Nunca mais parei de brincar com as palavras. Algumas são tão gulosas, que não conseguimos deixar de provar. Queremos sempre mais, até ficamos rechonchudos com as capitulares. Foi na leitura que descobri a fonte prodigiosa onde conseguia beber palavras. Saciei a minha sede de comunicar e resolvi começar a escrever. Já dizia o meu avô que, para trabalhar como deve de ser, temos de nos alimentar a preceito. Pois a leitura é isso: o sustento da escrita.

O que mais me surpreendeu no incomensurável poder do ato de ler, foi o seu alcance. Com uma simples palavra podemos chegar até onde mais ninguém chega. Recordo-me do famoso “abre-te, sésamo”, que abria passagem a um tesouro resplandecente. É uma excelente metáfora para a magia da leitura e da palavra. Não há outra forma de entrar numa alma ou num coração, que não seja através da palavra. É como um bisturi invisível. Tem a capacidade de salvar uma vida ou de a ferir para sempre. Claro que, antes da palavra, temos a ideia-semente. Na literatura infantojuvenil é a parte mais importante. O meu bloco de notas é uma horta, onde semeio a criatividade. De vez em quando vou regando as ideias e, assim, posso constatar quais são as que germinam e as que definham. Nem todas vão singrar. Algumas nunca chegarão a ser. Mas quando uma ideia brota e floresce, é um milagre da natureza e tenho de aproveitar. Cuido dela, encorajo-a a crescer e desfruto do seu perfume. É o ingrediente principal da minha história e, por isso, precisa de amor e dedicação. Nenhum escritor consegue cozinhar um livro saboroso sem ingredientes frescos ou de qualidade. Por muito bom cozinheiro que seja. Eis porque as ideias-semente são importantes!

Quando lemos, voamos como pássaros, trepamos como macacos, mergulhamos com golfinhos e corremos como gazelas. Deixamos de ser meros humanos e tornamo-nos em heróis gregos que enfrentam os deuses olimpianos ou, então, em nobres cavaleiros que viajam no tempo da nossa História para nos contarem donde viemos. Tudo se torna mais perto, mais óbvio. Ficamos a conhecer mundos novos, mas quem não lê nunca há-de lá chegar. Fica aquém, sem o saber.

É uma longa viagem, que se perpetua na procura do saber, como a frase que vai recuperando o fôlego nas suas sucessivas vírgulas, sem nunca perder a esperança de encontrar um ponto final.

Tudo isto para voltar a ser criança. E voltar a ver o mundo com os olhos de um sorriso inocente.

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Se preferir, oiça o podcast.

Saber mais sobre o autor: http://www.passeio.pt/investigador/pedro-seromenho/

Eu… Leitor | José Torres | Professor

Apresenta-se a rubrica Eu… Leitor que vai dar a palavra a leitores que partilham a sua relação com os livros desde a infância.

Este registo multimodal – texto, som e imagem – apela à memória e reforça estratégias de promoção do livro e da leitura.

Ninguém melhor para começar a rubrica do que um professor. José Torres, professor de Português na Escola Secundária de Ponte de Sor, tem a palavra.

Serra da Peneda

A importância da leitura na infância…

“Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças.” Fernando Pessoa

Era uma vez…, há muito tempo…, eram algumas das palavras que agitavam a magia da nossa infância, vocábulos que nos abriam a imaginação daquela história que estava a começar. Eram os nossos primeiros contactos com a literatura, aquilo que nos fascinava e emocionava, ao mesmo tempo que despertava a nossa aptidão onírica. Eram aquelas pequenas narrativas que primeiro escutávamos com curiosidade e temor e que mais tarde pudemos ler! E surgiu a leitura, uma dádiva que nos enriquece ao longo do tempo.

Primeiro foram as épocas dos livros vivos. Criado numa aldeia (ainda marcada por ancestrais práticas comunitárias), plantada nas fraldas da serra da Peneda, ouvia as histórias contadas pela minha Avó quando já corria pelos caminhos da serra. Eram narradas à noite, à boca do catre! Não eram propriamente para adormecer e enchiam-me o sono de temores e terrores!  Faziam-me refletir sobre os perigos que a Serra e o rio Lima escondiam: Lobisomens que surgiam nos cruzamentos das ruas estreitas e escuras… A Mãe do Rio que arrastava as crianças para a vertigem dos pegos profundos… As almas do outro mundo que frequentavam os mais lúgubres lugares da aldeia!… Regulavam e faziam interiorizar o perigo! Uma forma de pedagogia iniciática que nos fazia respeitar a natureza e nos tornava autónomos muito precocemente. E nas noites longas e calmas do estio, na eira comunitária, enquanto as mulheres ripavam o linho à força de espadeiradas, as crianças juntavam-se à volta do contador de histórias da aldeia e enchiam a imaginação com histórias de fadas bondosas, duendes irrequietos e diabinhos de umbigos enormes e olhos flamejantes. Livros vivos …

Os livros não abundavam na aldeia e normalmente estavam reduzidos a um amontoado de folhas esfarrapadas de velhas rezas. Eram guardados nas fraldas dos espigueiros acreditando que afastavam os ratos ou junto às traves dos telhados, em honra de S. Bárbara, para esconjurarem as trovoadas.  Falava-se de um velho enclausurado que morava junto à igreja e que tinha um livro maldito que lhe dava poderes enormes, O Livro de S. Cipriano… O primeiro contacto visual com os livros surgiu muito precocemente nas obrigatórias e enfadonhas missas em latim! Enquanto o padre gritava o “Dominus vobiscum”e as pessoas respondiam maquinalmente  num latim macarrónico, eu olhava fascinado para aquele missal retangular vestido de couro, cujas folhas dançavam nas mãos esquecidas do oficiante. Que segredos escondiam aquelas folhas movediças e harmónicas?!

Veio depois a escola, um Professor maneta e os Livros. O decifrar mágico de consoantes e vogais transformou o mistério dos livros em realidades vivenciais. Os mundos de outras histórias formam-nos dados pela bênção das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Filas de cachopos frenéticos esperavam ansiosamente a sua vez para que lhes emprestassem livros! A primeira vez que entrei nesse velho furgão feito biblioteca lancei os olhos para o livro mais gordo que lá havia: Os Miseráveis de Vitor Hugo! Perante a recusa da bibliotecária, que olhava espantada para a minha figura pequena e raquítica, espetou-me nos braços quatro livros (o máximo que podíamos trazer para quinze dias).  No meio vinha o livro do Pinóquio que reli por três vezes. Que história intrigante e perturbadora, um rapazinho de madeira que falava, tinha sentimentos, mentia e era perseguido por uma consciência em forma de grilo! Até que se transformou em ser humano!

Até hoje persegue-me essa alegoria que me leva a incessantemente procurar nos livros essa capacidade de nos ir transformando o corpo oco de madeira em seres cada vez mais humanos. Na minha mesa de cabeceira e na casa de banho tenho sempre um monte de livros. Não consigo viver sem eles.

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