O Idiota Maravilhoso de Shüsaku Endö

Revista Ler | Outono 2019 | Texto de Adelino Ascenso || Foto Credit: Bettmann Archive/Bettmann

Sem dúvida que uma das melhores vias para o desenvolvimento da investigação das relações entre fé e cultura se encontra no manancial oferecido pela dimensão estética, nomeadamente, na arte e na literatura. Poesia e ficção são meios privilegiados para expressar o divino oculto no sentido profundo de enfermidade e angústia, alegria e esperança, dúvida e pasmo, pois elas vagueiam pelos corredores mais recônditos da Humanidade. Por isso, a ficção é um pilar fundamental para a base antropológica necessária à reflexão teológica. É a esta luz que toda a obra de ficção do escritor japonês Shusaku Endo deve ser analisada e avaliada.

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Eu… Leitor | Pedro Seromenho | Escritor

Pormenor de ilustração do livro “Uma mão cheia”, que será lançado no próximo dia 8 de abril pela Porto Editora.

Antes de saber ler e escrever, falava imagens. Era a minha forma de comunicar. Desenhava e partilhava tudo o que via e sentia, na esperança do mundo me perceber. É o que todos fazemos. Para nos sentirmos vivos e presentes. Depois, veio o verbo e o prazer de abrir um livro para viajar. Foi uma descoberta surpreendente, que me deixou feliz. Deixei de estar apenas num lugar e o mundo passou a caber-me na palma da mão. Aprendi os países, as cidades, as capitais, os rios e as montanhas. De repente, cresci e soltei-me como um gigante que descalça o mar e afasta as nuvens para passar. Bastava estender um braço para alcançar as estrelas e os planetas! Nunca mais parei de ler. Nunca mais parei de brincar com as palavras. Algumas são tão gulosas, que não conseguimos deixar de provar. Queremos sempre mais, até ficamos rechonchudos com as capitulares. Foi na leitura que descobri a fonte prodigiosa onde conseguia beber palavras. Saciei a minha sede de comunicar e resolvi começar a escrever. Já dizia o meu avô que, para trabalhar como deve de ser, temos de nos alimentar a preceito. Pois a leitura é isso: o sustento da escrita.

O que mais me surpreendeu no incomensurável poder do ato de ler, foi o seu alcance. Com uma simples palavra podemos chegar até onde mais ninguém chega. Recordo-me do famoso “abre-te, sésamo”, que abria passagem a um tesouro resplandecente. É uma excelente metáfora para a magia da leitura e da palavra. Não há outra forma de entrar numa alma ou num coração, que não seja através da palavra. É como um bisturi invisível. Tem a capacidade de salvar uma vida ou de a ferir para sempre. Claro que, antes da palavra, temos a ideia-semente. Na literatura infantojuvenil é a parte mais importante. O meu bloco de notas é uma horta, onde semeio a criatividade. De vez em quando vou regando as ideias e, assim, posso constatar quais são as que germinam e as que definham. Nem todas vão singrar. Algumas nunca chegarão a ser. Mas quando uma ideia brota e floresce, é um milagre da natureza e tenho de aproveitar. Cuido dela, encorajo-a a crescer e desfruto do seu perfume. É o ingrediente principal da minha história e, por isso, precisa de amor e dedicação. Nenhum escritor consegue cozinhar um livro saboroso sem ingredientes frescos ou de qualidade. Por muito bom cozinheiro que seja. Eis porque as ideias-semente são importantes!

Quando lemos, voamos como pássaros, trepamos como macacos, mergulhamos com golfinhos e corremos como gazelas. Deixamos de ser meros humanos e tornamo-nos em heróis gregos que enfrentam os deuses olimpianos ou, então, em nobres cavaleiros que viajam no tempo da nossa História para nos contarem donde viemos. Tudo se torna mais perto, mais óbvio. Ficamos a conhecer mundos novos, mas quem não lê nunca há-de lá chegar. Fica aquém, sem o saber.

É uma longa viagem, que se perpetua na procura do saber, como a frase que vai recuperando o fôlego nas suas sucessivas vírgulas, sem nunca perder a esperança de encontrar um ponto final.

Tudo isto para voltar a ser criança. E voltar a ver o mundo com os olhos de um sorriso inocente.

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Se preferir, oiça o podcast.

Saber mais sobre o autor: http://www.passeio.pt/investigador/pedro-seromenho/

Eu… Leitor | José Torres | Professor

Apresenta-se a rubrica Eu… Leitor que vai dar a palavra a leitores que partilham a sua relação com os livros desde a infância.

Este registo multimodal – texto, som e imagem – apela à memória e reforça estratégias de promoção do livro e da leitura.

Ninguém melhor para começar a rubrica do que um professor. José Torres, professor de Português na Escola Secundária de Ponte de Sor, tem a palavra.

Serra da Peneda

A importância da leitura na infância…

“Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças.” Fernando Pessoa

Era uma vez…, há muito tempo…, eram algumas das palavras que agitavam a magia da nossa infância, vocábulos que nos abriam a imaginação daquela história que estava a começar. Eram os nossos primeiros contactos com a literatura, aquilo que nos fascinava e emocionava, ao mesmo tempo que despertava a nossa aptidão onírica. Eram aquelas pequenas narrativas que primeiro escutávamos com curiosidade e temor e que mais tarde pudemos ler! E surgiu a leitura, uma dádiva que nos enriquece ao longo do tempo.

Primeiro foram as épocas dos livros vivos. Criado numa aldeia (ainda marcada por ancestrais práticas comunitárias), plantada nas fraldas da serra da Peneda, ouvia as histórias contadas pela minha Avó quando já corria pelos caminhos da serra. Eram narradas à noite, à boca do catre! Não eram propriamente para adormecer e enchiam-me o sono de temores e terrores!  Faziam-me refletir sobre os perigos que a Serra e o rio Lima escondiam: Lobisomens que surgiam nos cruzamentos das ruas estreitas e escuras… A Mãe do Rio que arrastava as crianças para a vertigem dos pegos profundos… As almas do outro mundo que frequentavam os mais lúgubres lugares da aldeia!… Regulavam e faziam interiorizar o perigo! Uma forma de pedagogia iniciática que nos fazia respeitar a natureza e nos tornava autónomos muito precocemente. E nas noites longas e calmas do estio, na eira comunitária, enquanto as mulheres ripavam o linho à força de espadeiradas, as crianças juntavam-se à volta do contador de histórias da aldeia e enchiam a imaginação com histórias de fadas bondosas, duendes irrequietos e diabinhos de umbigos enormes e olhos flamejantes. Livros vivos …

Os livros não abundavam na aldeia e normalmente estavam reduzidos a um amontoado de folhas esfarrapadas de velhas rezas. Eram guardados nas fraldas dos espigueiros acreditando que afastavam os ratos ou junto às traves dos telhados, em honra de S. Bárbara, para esconjurarem as trovoadas.  Falava-se de um velho enclausurado que morava junto à igreja e que tinha um livro maldito que lhe dava poderes enormes, O Livro de S. Cipriano… O primeiro contacto visual com os livros surgiu muito precocemente nas obrigatórias e enfadonhas missas em latim! Enquanto o padre gritava o “Dominus vobiscum”e as pessoas respondiam maquinalmente  num latim macarrónico, eu olhava fascinado para aquele missal retangular vestido de couro, cujas folhas dançavam nas mãos esquecidas do oficiante. Que segredos escondiam aquelas folhas movediças e harmónicas?!

Veio depois a escola, um Professor maneta e os Livros. O decifrar mágico de consoantes e vogais transformou o mistério dos livros em realidades vivenciais. Os mundos de outras histórias formam-nos dados pela bênção das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Filas de cachopos frenéticos esperavam ansiosamente a sua vez para que lhes emprestassem livros! A primeira vez que entrei nesse velho furgão feito biblioteca lancei os olhos para o livro mais gordo que lá havia: Os Miseráveis de Vitor Hugo! Perante a recusa da bibliotecária, que olhava espantada para a minha figura pequena e raquítica, espetou-me nos braços quatro livros (o máximo que podíamos trazer para quinze dias).  No meio vinha o livro do Pinóquio que reli por três vezes. Que história intrigante e perturbadora, um rapazinho de madeira que falava, tinha sentimentos, mentia e era perseguido por uma consciência em forma de grilo! Até que se transformou em ser humano!

Até hoje persegue-me essa alegoria que me leva a incessantemente procurar nos livros essa capacidade de nos ir transformando o corpo oco de madeira em seres cada vez mais humanos. Na minha mesa de cabeceira e na casa de banho tenho sempre um monte de livros. Não consigo viver sem eles.

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Olhares para o feminino

Photo by Antonino Visalli on Unsplash

Os dados apurados em muitos estudos internacionais sobre os direitos de homens e mulheres mostram que estamos ainda longe da igualdade plena. Apesar do último relatório do Banco Mundial mostrar progresso no índice “Mulheres, negócios e lei” em que Portugal obteve o máximo da pontuação em todas as componentes avaliadas (mobilidade, local de trabalho, salário, casamento, parentalidade, empreendedorismo, ativos e pensões), sabemos que as desigualdades se mantêm.

O Banco Mundial é claro ao afirmar que “quando as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens, quando entram e ficam na força de trabalho, fortalecem as economias e alavancam o desenvolvimento”, pelo que os estados devem promover a igualdade de oportunidades.

Desde 1908, ano em que se começou a celebrar o Dia Internacional da Mulher, que a lista das mulheres que contribuíram para mudar o rumo da história tem vindo a crescer.

Os exemplos que retratam a capacidade empreendedora da mulher são muitos. Deixamos alguns.

Em Portugal, em 1911, só os chefes de família que soubessem ler podiam votar e pela primeira vez uma mulher votou porque ousou assumir-se como chefe de família, pois era viúva, Carolina Ângelo, médica.

Nos anos 70, o livro “Novas Cartas Portuguesas”, da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno desafiou a autoridade moral e afrontou o domínio masculino entre nós.

Lá fora, Frida Kahlo, uma das pintoras mais conhecidas no mundo, a investigadora Rosalind Franklin que esteve envolvida na descoberta da estrutura do ADN, Federica Montseny, a primeira mulher ministra na Europa, Evita Péron, a primeira dama do povo e Virginia Woolf, escritora que lutou pelos direitos das mulheres e contra o domínio dos homens no mundo editorial, entre outras, marcaram os feitos no feminino.

Para além de Virginia Woolf deixamos uma proposta de quatro autoras, consideradas chave, para aqueles que querem conhecer pontos de vista feministas na literatura:

Alice Munro
Dulce Chacón
Margaret Atwood
Simone de Beauvoir

No cinema, apesar do trabalho das realizadoras portuguesas ser raramente exibido, há figuras femininas incontornáveis, hoje, na sétima arte.

Um estudo publicado no jornal BMC Psychology revela que as mulheres têm melhor desempenho que os homens, quando estão a realizar várias tarefas ao mesmo tempo. E já sabemos que, em Portugal, há mais mulheres advogadas, juristas e médicas, para não falar de outras profissões como o ensino.

Terminamos com um hino à condição feminina da autoria da “Andante Associação Artística”.

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E, já agora, conheça o roteiro das estátuas que, por Lisboa, celebra as mulheres portuguesas que marcaram o seu tempo, das artes à política, representando várias classes sociais.

Júlio Dinis | não viver de leve, não escrever de leve, não morrer de leve

Revista Ler | Inverno 2019 | Texto de Hugo Pinto Santos


Não pode ser lida sem as maiores reservas, a conhecida frase de Eça de Queirós. Autêntica divisa para apressados da leitura, salvo-conduto para qualquer consciência literária minimamente culpada, não faz justiça a Júlio Dinis. A não ser que se considere viver e morrer de leve não ter chegado aos 32 anos; ser médico e ter estudado a doença, mas sucumbir à tuberculose, em lenta agonia, depois de um percurso como doente que foi, também ele, uma demorada e torturante agonia. E, quanto a escrever de leve, que dizer de quem assinou algumas das primeiras páginas portuguesas em que pulsava um autêntico realismo – fora de escolas ou postulados encarniçados? Que dizer senão que este autor não escreveu, nem viveu, nem morreu de leve? Para absolver o genial Eça do mal que praticou com aquela frase, levianamente escrita, e demasiadas vezes repetida, sem critério, nem reflexão suficiente, bastaria, porém, lermos estas outras palavras do homem da Póvoa, escritas sobre As Pupilas do Senhor Reitor: «Era um livro real, aparecendo no meio de uma literatura artificial, com uma simplicidade verdadeira, como uma paisagem de Cláudio Loreno, entre grossas telas mitológicas. Era um livro onde se ia respirar.»

(…)

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