Rodar o caleidoscópio para ver os três ou mais Herculanos

Revista LER, nº 157 / Texto de Hugo Pinto Santos

De quem falamos, quando falamos de Alexandre Herculano? Quando o seu nome ocorre, e talvez pudesse ser menos raro, é o pioneiro do romantismo português que se refere? O romancista, ou o historiador? O poeta que depôs a lira antes dos 30 anos – ou o jornalista? É o soldado, o combatente pela liberdade? Será o defensor do casamento civil que se casou pela Igreja? Ou ainda o tribuno intermitente – a quem José Estêvão teria dito, ao vê-lo a ler por papéis, no fórum ainda incipiente da democracia portuguesa: «Ó senhor, largue a sebenta!»? De todas essas imagens se comporá Herculano, sem que uma das suas facetas nos autorize a esquecer as outras. Porque todas se implicam mutuamente para formar uma personalidade ímpar, e nada linear, da cultura portuguesa.

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Censura, literatura popular e literatura séria

Revista Ler | Primavera/Outono 2020 | Texto de Manuel Frias Martins | Photo by Anthony Tran on Unsplash

Será que faz ainda sentido separar radicalmente os termos literatura séria e literatura popular? Há uma ponte a estabelecer com a literatura ligeira, ou esta deve ser ignorada? Autor e professor de Teoria da Literatura (e tradutor de Harold Bloom), Manuel Frias Martins propõe uma leitura de conjunto dos textos do nosso tempo.

Continuar a insistir no mito de que o entretenimento massificado é de mau gosto, e que os seus textos ficcionais mais populares estão destinados ao caixote de lixo, é não só preconceituoso mas também errado. O erro de avaliação é quase sempre consequência da sobranceria intelectual do avaliador e não é um dado exclusivo da modernidade.

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O Idiota Maravilhoso de Shüsaku Endö

Revista Ler | Outono 2019 | Texto de Adelino Ascenso || Foto Credit: Bettmann Archive/Bettmann

Sem dúvida que uma das melhores vias para o desenvolvimento da investigação das relações entre fé e cultura se encontra no manancial oferecido pela dimensão estética, nomeadamente, na arte e na literatura. Poesia e ficção são meios privilegiados para expressar o divino oculto no sentido profundo de enfermidade e angústia, alegria e esperança, dúvida e pasmo, pois elas vagueiam pelos corredores mais recônditos da Humanidade. Por isso, a ficção é um pilar fundamental para a base antropológica necessária à reflexão teológica. É a esta luz que toda a obra de ficção do escritor japonês Shusaku Endo deve ser analisada e avaliada.

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Júlio Dinis | não viver de leve, não escrever de leve, não morrer de leve

Revista Ler | Inverno 2019 | Texto de Hugo Pinto Santos


Não pode ser lida sem as maiores reservas, a conhecida frase de Eça de Queirós. Autêntica divisa para apressados da leitura, salvo-conduto para qualquer consciência literária minimamente culpada, não faz justiça a Júlio Dinis. A não ser que se considere viver e morrer de leve não ter chegado aos 32 anos; ser médico e ter estudado a doença, mas sucumbir à tuberculose, em lenta agonia, depois de um percurso como doente que foi, também ele, uma demorada e torturante agonia. E, quanto a escrever de leve, que dizer de quem assinou algumas das primeiras páginas portuguesas em que pulsava um autêntico realismo – fora de escolas ou postulados encarniçados? Que dizer senão que este autor não escreveu, nem viveu, nem morreu de leve? Para absolver o genial Eça do mal que praticou com aquela frase, levianamente escrita, e demasiadas vezes repetida, sem critério, nem reflexão suficiente, bastaria, porém, lermos estas outras palavras do homem da Póvoa, escritas sobre As Pupilas do Senhor Reitor: «Era um livro real, aparecendo no meio de uma literatura artificial, com uma simplicidade verdadeira, como uma paisagem de Cláudio Loreno, entre grossas telas mitológicas. Era um livro onde se ia respirar.»

(…)

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Como escrever? De “A” a “V”, de escritores para candidatos à escrita

Revista LER | Inverno 2019 | Texto de Filipa Melo

AMOR

«A melhor metáfora que conheço para o que é ser-se um escritor de ficção está em Mao II, de Don DeLillo, quando ele descreve um livro em processo de escrita como uma espécie de bebé horrendamente aleijado que segue o escritor por todo o lado, sempre a rastejar atrás dele (arrastando-se do outro lado do piso de restaurantes onde o escritor está a tentar comer, espreitando aos pés da cama logo de manhã, etc.), terrivelmente defeituoso, hidrocefálico e sem nariz, com braçadeiras nos braços e incontinente e retardado e escorrendo líquido cefalorraquidiano pela boca, enquanto choraminga, balbucia e pedincha junto do escritor, querendo amor, querendo exatamente o que a sua monstruosidade lhe garante: a atenção completa por parte do escritor.

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