Eu… Leitor | Pedro Seromenho | Escritor

Pormenor de ilustração do livro “Uma mão cheia”, que será lançado no próximo dia 8 de abril pela Porto Editora.

Antes de saber ler e escrever, falava imagens. Era a minha forma de comunicar. Desenhava e partilhava tudo o que via e sentia, na esperança do mundo me perceber. É o que todos fazemos. Para nos sentirmos vivos e presentes. Depois, veio o verbo e o prazer de abrir um livro para viajar. Foi uma descoberta surpreendente, que me deixou feliz. Deixei de estar apenas num lugar e o mundo passou a caber-me na palma da mão. Aprendi os países, as cidades, as capitais, os rios e as montanhas. De repente, cresci e soltei-me como um gigante que descalça o mar e afasta as nuvens para passar. Bastava estender um braço para alcançar as estrelas e os planetas! Nunca mais parei de ler. Nunca mais parei de brincar com as palavras. Algumas são tão gulosas, que não conseguimos deixar de provar. Queremos sempre mais, até ficamos rechonchudos com as capitulares. Foi na leitura que descobri a fonte prodigiosa onde conseguia beber palavras. Saciei a minha sede de comunicar e resolvi começar a escrever. Já dizia o meu avô que, para trabalhar como deve de ser, temos de nos alimentar a preceito. Pois a leitura é isso: o sustento da escrita.

O que mais me surpreendeu no incomensurável poder do ato de ler, foi o seu alcance. Com uma simples palavra podemos chegar até onde mais ninguém chega. Recordo-me do famoso “abre-te, sésamo”, que abria passagem a um tesouro resplandecente. É uma excelente metáfora para a magia da leitura e da palavra. Não há outra forma de entrar numa alma ou num coração, que não seja através da palavra. É como um bisturi invisível. Tem a capacidade de salvar uma vida ou de a ferir para sempre. Claro que, antes da palavra, temos a ideia-semente. Na literatura infantojuvenil é a parte mais importante. O meu bloco de notas é uma horta, onde semeio a criatividade. De vez em quando vou regando as ideias e, assim, posso constatar quais são as que germinam e as que definham. Nem todas vão singrar. Algumas nunca chegarão a ser. Mas quando uma ideia brota e floresce, é um milagre da natureza e tenho de aproveitar. Cuido dela, encorajo-a a crescer e desfruto do seu perfume. É o ingrediente principal da minha história e, por isso, precisa de amor e dedicação. Nenhum escritor consegue cozinhar um livro saboroso sem ingredientes frescos ou de qualidade. Por muito bom cozinheiro que seja. Eis porque as ideias-semente são importantes!

Quando lemos, voamos como pássaros, trepamos como macacos, mergulhamos com golfinhos e corremos como gazelas. Deixamos de ser meros humanos e tornamo-nos em heróis gregos que enfrentam os deuses olimpianos ou, então, em nobres cavaleiros que viajam no tempo da nossa História para nos contarem donde viemos. Tudo se torna mais perto, mais óbvio. Ficamos a conhecer mundos novos, mas quem não lê nunca há-de lá chegar. Fica aquém, sem o saber.

É uma longa viagem, que se perpetua na procura do saber, como a frase que vai recuperando o fôlego nas suas sucessivas vírgulas, sem nunca perder a esperança de encontrar um ponto final.

Tudo isto para voltar a ser criança. E voltar a ver o mundo com os olhos de um sorriso inocente.

Clique na imagem para visualizar no Youtube…

***

Se preferir, oiça o podcast.

Saber mais sobre o autor: http://www.passeio.pt/investigador/pedro-seromenho/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s