Eu… Leitor | José Torres | Professor

Apresenta-se a rubrica Eu… Leitor que vai dar a palavra a leitores que partilham a sua relação com os livros desde a infância.

Este registo multimodal – texto, som e imagem – apela à memória e reforça estratégias de promoção do livro e da leitura.

Ninguém melhor para começar a rubrica do que um professor. José Torres, professor de Português na Escola Secundária de Ponte de Sor, tem a palavra.

Serra da Peneda

A importância da leitura na infância…

“Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças.” Fernando Pessoa

Era uma vez…, há muito tempo…, eram algumas das palavras que agitavam a magia da nossa infância, vocábulos que nos abriam a imaginação daquela história que estava a começar. Eram os nossos primeiros contactos com a literatura, aquilo que nos fascinava e emocionava, ao mesmo tempo que despertava a nossa aptidão onírica. Eram aquelas pequenas narrativas que primeiro escutávamos com curiosidade e temor e que mais tarde pudemos ler! E surgiu a leitura, uma dádiva que nos enriquece ao longo do tempo.

Primeiro foram as épocas dos livros vivos. Criado numa aldeia (ainda marcada por ancestrais práticas comunitárias), plantada nas fraldas da serra da Peneda, ouvia as histórias contadas pela minha Avó quando já corria pelos caminhos da serra. Eram narradas à noite, à boca do catre! Não eram propriamente para adormecer e enchiam-me o sono de temores e terrores!  Faziam-me refletir sobre os perigos que a Serra e o rio Lima escondiam: Lobisomens que surgiam nos cruzamentos das ruas estreitas e escuras… A Mãe do Rio que arrastava as crianças para a vertigem dos pegos profundos… As almas do outro mundo que frequentavam os mais lúgubres lugares da aldeia!… Regulavam e faziam interiorizar o perigo! Uma forma de pedagogia iniciática que nos fazia respeitar a natureza e nos tornava autónomos muito precocemente. E nas noites longas e calmas do estio, na eira comunitária, enquanto as mulheres ripavam o linho à força de espadeiradas, as crianças juntavam-se à volta do contador de histórias da aldeia e enchiam a imaginação com histórias de fadas bondosas, duendes irrequietos e diabinhos de umbigos enormes e olhos flamejantes. Livros vivos …

Os livros não abundavam na aldeia e normalmente estavam reduzidos a um amontoado de folhas esfarrapadas de velhas rezas. Eram guardados nas fraldas dos espigueiros acreditando que afastavam os ratos ou junto às traves dos telhados, em honra de S. Bárbara, para esconjurarem as trovoadas.  Falava-se de um velho enclausurado que morava junto à igreja e que tinha um livro maldito que lhe dava poderes enormes, O Livro de S. Cipriano… O primeiro contacto visual com os livros surgiu muito precocemente nas obrigatórias e enfadonhas missas em latim! Enquanto o padre gritava o “Dominus vobiscum”e as pessoas respondiam maquinalmente  num latim macarrónico, eu olhava fascinado para aquele missal retangular vestido de couro, cujas folhas dançavam nas mãos esquecidas do oficiante. Que segredos escondiam aquelas folhas movediças e harmónicas?!

Veio depois a escola, um Professor maneta e os Livros. O decifrar mágico de consoantes e vogais transformou o mistério dos livros em realidades vivenciais. Os mundos de outras histórias formam-nos dados pela bênção das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Filas de cachopos frenéticos esperavam ansiosamente a sua vez para que lhes emprestassem livros! A primeira vez que entrei nesse velho furgão feito biblioteca lancei os olhos para o livro mais gordo que lá havia: Os Miseráveis de Vitor Hugo! Perante a recusa da bibliotecária, que olhava espantada para a minha figura pequena e raquítica, espetou-me nos braços quatro livros (o máximo que podíamos trazer para quinze dias).  No meio vinha o livro do Pinóquio que reli por três vezes. Que história intrigante e perturbadora, um rapazinho de madeira que falava, tinha sentimentos, mentia e era perseguido por uma consciência em forma de grilo! Até que se transformou em ser humano!

Até hoje persegue-me essa alegoria que me leva a incessantemente procurar nos livros essa capacidade de nos ir transformando o corpo oco de madeira em seres cada vez mais humanos. Na minha mesa de cabeceira e na casa de banho tenho sempre um monte de livros. Não consigo viver sem eles.

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