Como um vírus | Cristina Paiva

Oiça o texto ou leia-o | Texto e voz – Cristina Paiva
Sonoplastia – Fernando Ladeira

Faz um exercício: suprime as letras. Suprime as palavras escritas. Suprime as ordens, os alertas, os anúncios, os editais, as declarações. Suprime as cartas, os cadernos, os livros. Suprime essa linguagem cifrada cujo código tanto te enfastia. Suprime o pensamento, a imaginação, a criação, o entendimento, a compreensão, a compaixão.

Faz um exercício: rebenta com a memória, explode esses circuitos que te ligam aos outros, faz detonar a avalanche de histórias que tentam desenhar um caminho, incendeia o aconchego das canções de embalar, bombardeia os poemas, queima os livros.

Faz um exercício: fecha a porta, as janelas, os canais; impede o ar, o tacto, o cheiro; bloqueia qualquer tentativa de contacto.

Chegado aqui talvez precises de qualquer coisa que não sabes definir. Uma fome? Uma sede? Uma falta de ar? Um sono? Uma fuga? Não sabes dizer. Falta qualquer coisa. O quê? Ar? Algo que põe os dedos dos pés a mexer. São espasmos. Não os consegues parar. Já as pernas pedalam involuntariamente e tu sem saberes o que te pede o corpo. Ar? As mãos e os braços entram também na dança. Um corpo epiléptico. Sem ar. Apesar de tanto movimento, a dança involuntária não te traz prazer. Como se um feixe te canas de rodeassem. Uma prisão.

Chegado aqui páras. Finalmente preso, imóvel. O sossego. Finalmente respiras. Livremente. Sem mais necessidades. E subitamente ouves: Chamem-me Ismael. Ouves? É uma voz? Sim, é uma voz. A tua voz? Sim, não há mais ninguém à volta. Escutas com mais atenção: Eu não sou eu nem sou o outro. Mau! Tanto esforço para nada. Respiras fundo. Ar. O ar é importante. E não pensar. Ensinaram-te: não penses, não te coíbas de apenas sentir, liberta-te da prisão do pensamento. Ora até que enfim…, perfeitamente…/ Cá está ela!/ Tenho a loucura exactamente na cabeça. Como pipocas a saltar. Não te largam. É difícil o abandono. Mas é possível. Só tens de ser perseverante. Respira. Profundamente. Estás só. Sem antes nem depois. Amansado finalmente o corpo só precisas de respirar profundamente. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas… Impossível. os olhos verdes de Diadorim…As letras, Nada temos porque nada somos…as palavras, Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros…as frases, Comigo me desavim,/ Sou posto em todo perigo;… os versos, Conheço o sal da tua boca…  os poemas, Não posso adiar o amor para outro século… os livros, Uma lenda antiga dizia que um dia os deuses do Olimpo, cansados das durezas da guerra  e das batalhas do amor, deixaram o monte mágico onde residiam e voaram na direcção do extremo ocidental do mundo, …o mundo feito de linguagem a desenhar caminhos dentro e fora de ti. Nesta curva tão terna e lancinante / que vai ser que já é o teu desaparecimento / digo-te adeus / e como um adolescente / tropeço de ternura / por ti.

Uma vez começado não há dança epiléptica que o evite. É como o amor. É como um vírus. É como a vida. Respira. Tens uma mão ao lado para segurar. Faz este exercício: Agarra-a, prende-a bem, não a largues. Nunca ficarás só.

Citações de Herman Melville, Mário de Sá-Carneiro, Álvaro de Campos, João Guimarães Rosa, Bernardo Soares, José Luís Peixoto, Sá de Miranda, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Lídia Jorge e Alexandre O’Neill.

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