Palavra de Ordem: Motivar para a leitura | Ana Cristina Silva

Photo by Stephane YAICH on Unsplash

Há uns anos, quando saíram  os resultados do PISA 2018, ficámos a saber que um terço dos alunos de 15 anos só lê se for obrigado, considerando a leitura uma perda de tempo. Os resultados confirmam ainda que “não saber ler” é o principal factor de retenção no segundo ano de escolaridade. Se o verbo ler é como o verbo amar e não suporta o imperativo, como refere Daniel Pennac, há muitas actividades e algumas atitudes que poderão promover um percurso facilitador da motivação para a leitura.

No princípio talvez estejam as histórias, a leitura de histórias e, sobretudo, o entusiasmo na sua leitura. Esta é, aliás, uma prática corrente por parte de muitas famílias informadas da sua relevância para a motivação da leitura. Neste ritual, que a maior parte das crianças adora, elas vão-se apoderando da estrutura das narrativas, ampliam o vocabulário, apropriam-se de frases com estruturas mais complexas, compreendem conceitos como frases, palavras e letras, etc.. Para além destas dimensões mais cognitivas, existem muitos ganhos de carácter emocional decorrentes da leitura de histórias, como seja a capacidade para reconhecer emoções em si e nos outros através das personagens e o desenvolvimento da empatia.

Por isso, caso tenha filhos pequenos, faça da leitura de histórias antes de deitar um ritual de entusiasmo. E não vale fazer ameaças com a exclusão desse momento caso ele ou ela se tenha portado mal nem descartar essa tarefa para irmãos mais velhos ou primos, porque esse é também um momento de intimidade que favorece a vinculação.

Ambientes estimulantes de literacia implicam muitas outras actividades simples como por exemplo a escrita de emails ditados pelas crianças, as visitas à biblioteca e às suas iniciativas, fazer a lista de compras ou de presentes com a criança, ler as instruções ao mesmo tempo que se monta um jogo, etc. Estes contextos constituem o “ pano de fundo” de episódios interactivos em torno de diferentes suportes de leitura com adultos significativos para as crianças que assim valorizam e encorajam as descobertas infantis sobre o código escrito. Desta forma as crianças vão-se apropriando das finalidades do escrito, vão descobrindo como os diversos tipos de suportes (revistas, livros de histórias ou de poemas) correspondem a diferentes conteúdos, e construindo pouco a pouco motivos pessoais para quererem aprender a ler. Ao serem questionadas sobre os seus motivos para aprenderem a ler as crianças que estão integradas em ambientes ricos em experiências de literacia  fazem frequentemente afirmações como: “ Quero aprender a ler para ler livros de histórias”, “ Para saber mais sobre animais”, “ Para escrever cartas ao pai que está em França”.

Estas práticas de literacia em contexto familiar não existem, contudo, em todos os lares. Segundo alguns estudos, quando entram na escola, as crianças provenientes de meios socioculturais favorecidos possuem uma vantagem de cerca de 1000 horas de experiências de literacia, face a crianças de meios desfavorecidos. São estas últimas que mais facilmente evocam razões circulares (“Quero aprender a ler para ler letras”) ou institucionais (“Quero aprender a ler para fazer os trabalhos de casa”) para aprender a ler, enfrentando a aprendizagem da leitura em contexto formal como um mero ritual social desprovido de sentido. E, provavelmente, estas diferenças explicam, pelo menos  parte,   das muitas das retenções que encontramos no segundo ano de escolaridade devido às dificuldades na leitura.

Esses momentos de leitura de histórias e a partilha de emoções sobre as histórias lidas devem prosseguir mesmo depois de as crianças entrarem para a escola. As etapas iniciais da leitura são bastante árduas, porque muitas crianças conseguem apenas focar-se nas relações letras-sons, sendo importante que o adulto continue a proporcionar às crianças a magia da histórias ou pelo menos fazer leituras conjuntas.

Essas leituras conjuntas devem ainda prosseguir durante toda a escolaridade, tanto em casa como na escola. Partilhar as revelações de um livro, os seus mistérios e o entusiasmo perante a sua leitura ajuda crianças e jovens a tornarem-se bons leitores.  É importante que os adultos – pais, professores, bibliotecários –   alimentem o entusiasmo da leitura com o seu próprio entusiasmo em ler e isso será difícil se eles próprios não forem leitores.   Nessa medida, medidas de promoção de leitura deveriam incluir também a estimulação do gosto de ler nos adultos para que o entusiasmo pela leitura se torne verdadeiramente contagiante.

por Ana Cristina Silva

Professora do ISPA e escritora.

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